Os sonhos

Publicado: março 4, 2013 por slyfer052 em Contos
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Encontrei um livro interessante hoje. Na capa, de tom azul escurecido, só havia o título: Os Sonhos. Na contracapa apenas o nome: Antonio Bragança. Mas o livro, Sujo. Velho. Havia sido escrito a tinta, com uma bonita letra que demonstrava certa rigidez e tristeza nas palavras, sentia isso. Algumas páginas rasgadas e manchadas mostravam o quão castigado fora. Talvez pela umidade. O tempo. Ou qualquer outra coisa. Valeram-me 20 reais daquele sebo perto do serviço.

 

Cheguei cansada do trabalho, como de costume. Chega ser irônico eu ter estudado tanto, e não ter tempo algum pra descansar. O trabalho me suga. Estou realmente exausta.

 

Dei uma lida no livro, apesar da linguagem muito rebuscada e de algumas partes cortadas, estou conseguindo acompanhar. Ele conta a história de uma criatura antiga que aterrorizava algumas vilas pequenas no interior do Brasil, não citam a região. É uma escrita áspera, muito descritiva e intensa. Não dá vontade de parar.

 

A documentação estava atrasada, e meu chefe não parava de me encher. Fiquei o dia inteiro com dor de cabeça. Mais tarde fui almoçar com as meninas, A Ágata contou que vai viajar no próximo final de semana, eu devia fazer alguma coisa. O que?

 

A criatura já foi capturada, e fizeram um ritual de sacrifício para a mesma. O personagem principal, Antonio havia aprisionado a besta, e proclamado seu aprisionamento. A vila inteira se reunião para caçoar da criatura, mas besta jurou seu retorno aos poucos que lembrarem dela.

 

Tive um sonho estranho, estava num breu total, mas ouvia passos e passos. Sussurros.

 

Mal consegui dormir, fiquei péssima no trabalho. Além de estranha, não tinha humor ou energia pra nada… A história continua pouco a pouco as pessoas da vila começando a terem visões, algumas começaram a ficar paranóicas! Antonio não conseguia ajudar ninguém, a besta os atacava mentalmente. E ele vira todos sofrerem, sem poder fazer absolutamente nada.

 

Não estou conseguindo mais me concentrar no trabalho. É como se já não aguentasse mais. Talvez devesse pedir as contas.

 

Passos. Risos. Passos.

 

Meu chefe continua descontando toda sua fúria em mim, não sei se ele é mal resolvido com a mulher ou o que, mas pouco me importa. Simplesmente queria que ele sumisse. Ou me ignorasse. Que ódio!

 

Não consigo dormir.

 

Nem o café surte efeito. Duas contas estavam erradas e já havia computado no sistema, vou demorar dias para conseguir revisar todo o balanço da empresa. Mariana disse que estava pálida, que devia procurar um médico. Bobagem.

 

Antonio continuava na ânsia e desespero de salvar seu vilarejo e sua amada, mas a única solução achada foi a de ir até uma bruxa da floresta. Passou-se pela floresta densa de animais selvagens, de insetos asquerosos e cheiros pútridos apenas com sua esperança. A bruxa sorriu ao vê-lo entrando em seu território. E fizeram um pacto.

 

Meu chefe ainda não descobriu meu erro, tenho tempo para revisar. Tempo. Café. Tempo. Café. Já não sinto sono no trabalho, apenas não sinto.

 

Da escuridão, começou a urrar e estapear algo. Não conseguia interpretar o que. Arranhar. Gritavam comigo, e eu chorava! Estava sozinha enquanto murmúrios me rodeavam, gritando e gritando. Não enxergava nada! O ar havia se tornado mais denso, mal respirava. Tudo tremia.

E eu vi a criatura.

Num relance de vultos. Exatamente como era descrita, de olhos amarelos foscos, alta e esguia. Ela me fitava com os dentes serrilhados a mostra e seus braços a balançar pra frente e para trás. Meu coração se gelou. Por dentro eu chorei, gritei e chorei. Como se meu coração tivesse parado de bater.

S

U

M

I

U

Então eu cai. Estava no escritório com as pessoas me olhando boquiabertas. Enquanto eu tentava recuperar meu fôlego, mas não conseguia pensar. Me desesperei. E coberta de suor, e com minhas pernas totalmente tremulas corri pra casa. Está tudo acesso, está de dia, e tudo claro. Não vou dormir e ele não vai me encontrar. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou…

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