Doces gemidos

Publicado: março 24, 2013 por slyfer052 em Contos
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Ela gemia.

Um gemido leve, que ecoava suavemente…

Imaginava seu corpo outrora tão delicado, e agora tão esfomeado. Ela vinha em minha direção. Lentamente. Com um joguete falso de pés, tentando me excitar de certa forma, e conseguia.

Ahhh… Aqueles doces sussurros, eles iam direto aos meus ouvidos, depois para o cérebro. D’onde me eram tomados por uma estranha sensação. É difícil de explicar. Era, tentador. Simplesmente.

Segurei firme.

E ao chegar à luz, pude vê-la pela primeira vez. Com vestes rasgadas mostrando parte de sua coxa, seu rosto pútrido de lábios carnudos, seu castanho cabelo sujo de lama e sua pele morena avermelhada.

Seus sussurros tornaram-se urros, e ela correu em minha direção com os braços erguidos. Berrava. Com sua garganta desgastada, pelo tempo, pelo clima, pela vida, pela pós-vida.

Ahhh… Aquela sensação… De poder simplesmente descontar tudo nessa vadia.

Tudo. Pela Julia ter me abandonado, pelo Matheus ter tentado me matar, pelo Marcos ter saído do refúgio aquela noite, pela Marcela ter me deixado aqui, e vários outros filhos da puta. Minha raiva iria embora. Sentiria bem comigo mesmo. Aliviado.

Estiquei meu braço, mirando.

Entretanto, ao mesmo tempo… Minha vida estava em risco, e isso deveria me excitar, não? Afinal, com o instinto de sobrevivência a flor da pele eu deveria… Estar eufórico?

Atirei.

E ela caiu.

Meu coração relaxou, vagamente.

E outros sussurros foram ouvidos…

Aqueles doces sussurros. – venham até mim. Por favor, me façam parar com essa angustia.

Tinham tantos.

Depois de tudo que passei nessa merda de vida, a única coisa que podia lembrar era o ódio pelas pessoas. Não conseguia pensar em outra coisa.

Atirei, atirei, atirei, e atirei.

Os miolos voaram para todos os lados, mas o terreno já estava sujo o suficiente. Nada mudou, eram apenas mais sujeiras no planeta imundo.

Cada tiro era pensado e planejado à uma pessoa. Por ser idiota, por ser corajosa, por ser teimoso, por terem me abandonado.

As balas acabaram e me restou apenas uma barra de ferro que arranquei do portão.

Cada ataque, cada pancada, eu executei com o mais profundo ódio e raiva. Aquela vontade de viver… Que foi se perdendo pouco a pouco.

Por que chorava?

Relutava comigo mesmo.

Por que isso tinha que acontecer?

Eles eram tantos…

Tanto sangue.

Estava cansado.

Éramos tantos…

Era tanta… Morte (?)…

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