O Coração de Lata

Publicado: janeiro 22, 2015 por madbaka em Contos

Sua mãe teve nove filhos, cinco meninas e quatro meninos. Ele foi o segundo homem. Cresceu na roça da família carregando caixas e caixas de tomate no lombo desde criança. Escola? Abandonou na quarta série. Ora, para trabalhar! Estudar para quê? Estudar pra quê? E então fez 23 anos e seguiu seu primo para a Capital. Ué? Como assim?Já? Que primo? E a infância? E os irmãos? Quem eram eles? Como cresceu? Não sei, não perguntei. Só sei o que começou a fazer quando tinha 23 anos. Veio para a Capital é claro. Veio em busca de trabalho, melhores condições de vida e essa história de todos que vem para a Capital da roça dizem, certo? Arrumou um trabalho numa Fábrica de Ferros. Trabalhou e trabalhou, entortando e torcendo ferros, latão e cobre, sucata de couro, e engrenagens enferrujadas. Entortar. Torcer. Entortar. Torcer. Ferro. Latão. Cobre. Entre as capiau, recebeu o apelido de Zé Lata, ou o homem lata, algo assim. Um homem que não tinha preocupações com outras coisas, apenas com o trabalho. Mas ele precisava ter outras preocupações, como qualquer outro. Conheceu sua mulher enquanto entortava alguns ferros perto de casa. Não sei também como foi esse processo. Desculpe. Enfim, ele conheceu sua mulher, e depois de um tempo teve um filho. Um filho. Ele não estava mais na roça, não precisava ter um time de futebol para trabalhar. Então teve um filho. O Zé Lata, com o dinheiro que conseguiu economizar durante anos entortando ferro, decidiu montar seu próprio negócio. Ora, Casa de Materiais Zé Lata. Ele não iniciou do zero. Comprou de um velho chamado Páscoa, que dizia ser um ponto bom, e que já estava velho demais para continuar nele. Zé lata ficou empolgado e trouxe a família para ajudar nesse negócio. As coisas começaram a dar certo. Em certo tempo o negócio cresceu e se expandiu com a aquisição de caminhões para fazer uma distribuição pela cidade. O negócio do Zé Lata cresceu muito realmente, comprou um galpão maior e uma pequena frota de caminhões para distribuição. Ele deu sorte. É…sorte. Com todo o foco no trabalho, acabou deixando sua família de lado. Deixando seu filho de lado. E era tarde. Zé lata nunca recebeu muita atenção dos pais e não ligava para os irmãos. Era o mais bem sucedido da família, e não tinha tempo para se preocupar com isso, afinal ele precisava trabalhar. E trabalhar e trabalhar. E continuar trabalhando. Sua mulher morreu de depressão e seu filho, de alguma forma, o culpava. “Nunca deu atenção para nós, era só trabalho e trabalho. Eu te odeio! Te odeio!”. Essas foram as últimas palavras do seu filho para ele. Nunca mais o viu. E então apenas após isso, Zé Lata percebeu o que tinha feito e perdido. Seu arrependimento o levou a e se afastou do negócio. A Casa de Materiais Zé Lata já andava com as próprias pernas, tinha toda uma equipe de funcionários competentes e um tanto gananciosos cuidando dela, e apreciavam o afastamento do Chefe. Zé Lata foi ficando louco. O seu corpo foi encontrado na Roça de onde tinha vindo, seu corpo estava cheio de ferrugem, e segurava em sua mãe um machado enfurrujado. Ataque cardíaco eles disseram…e assim seu coração do Zé Lata, O Homem Lata, parou de funcionar.

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