Posts com Tag ‘boa noite’

O cubículo

Publicado: outubro 18, 2015 por slyfer052 em cronicas
Tags:, , , , ,

Hoje gritaram comigo. Eu gostaria de gritar com a mesma facilidade mas minha voz não sai, ela fraqueja em relação a raiva, o ódio ou a pura libertação. Eu queria explodir, de verdade. O motor ronca alto parado no engarrafamento, o vira lata rosna, o filho bate, e eu respiro fundo contando até três e bufo.

O ar quente sai de minha boca transformando-se simplesmente em nada.

Coloco as chaves no chaveiro, e já sem meus sapatos abro a porta da sala. O céu está totalmente nublado em uma mistura de tons cinzas com um leve azul escuro da noite. Os trovões festejam. O vento balança a persiana suja. É bela a noite, e só ela me acalma. Aquele cubículo que chamo de varanda nunca esteve tão confortável. E com meus braços sobre o parapeito, eu respiro fundo contanto até três e expiro.

O ar quente sai de minha boca transformando-se simplesmente em tudo.

Anúncios

A conta

Publicado: fevereiro 12, 2014 por slyfer052 em Contos
Tags:, , , , , , , , , , , , , , ,

– A conta, por favor – Matheus fez um gesto de estar assinando algo.

O garçom assentiu.

– E então, gostou daqui?

– Achei lindo! A decoração, a comida, a vista… – Marina apontou para a janela com a vista da grande cidade de São Paulo com centenas de pequenos pontos brilhosos, sem falar na linda e serena lua que se prostrava cheia perante a eles – Você… Achei tudo maravilhoso!

Os dois sorriram timidamente.

– Sabe, existem outros lugares tão bonitos quanto este, posso te levar se quiser.

– Eu adoraria – Seus olhares estavam fixos e pouco a pouco seus rostos foram se aquecendo e avermelhando. Um pequeno toque de vergonha lhes percorreu.

– Aqui está senhor – Entregou a conta, o garçom.

– Obrigado.

Matheus abriu a comanda ainda com a expressão de felicidade em seu rosto, mas ao ler o valor seus olhos arregalaram, a música parou, a criança chorou, e tudo em volta ficou mais lento. Ele analisou Marina o olhando ainda maravilhada, observou todos os clientes bem vestidos no recinto, olhou novamente a conta…  E percebeu o quanto foi infeliz em escolher aquele restaurante.

Joelson, o garçom, coitado, estava ao lado apenas observando.

O tempo voltou a circular normalmente, a música voltou, e Mateus saiu do pequeno transe.

– Caralho – Deixou escapar.

– Oi? – Perguntou a jovem – Não entendi.

– Agasalho… Está muito frio aqui, não acha?

– Mas… Você está suando…

Uma gota gigante de suor escorreu de sua testa percorrendo todo o seu rosto.

– Quer dizer, está calor demais não está?

Marina inclinou a cabeça pro lado, tentando assimilar e achar o sentido naquela conversa.

– Tá…

– Por favor – Matheus sinalizou para Joelson se aproximar e cochichou em seu ouvido – Vocês parcelam em até quantas vezes?

– Em 3 vezes, senhor – Disse Joelson em alto e bom som.

– Err… – Ainda sim, era muito!

– Matheus, não tem problema – Se intrometeu a garota – Eu ajudo a pagar – Sorriu.

– Nãaao, não precisa. Eu pago.

– Parcela pra mim em 3 vezes, por favor – Falou para o garçom.

– Porque eu não posso ajudar a pagar? Eu também comi.

– É a lei, o homem pagar a conta, pelo menos no primeiro jantar.

– Ah é? Lei de quê?

– Lei da vida – Sorriu – Em 3 vezes por favor.

Joelson começou a colocar os dados na máquina do cartão…

– Lei da vida nada, isso é machismo! Acha mesmo que eu vou deixar você pagar sozinho? Divide a conta em dois, por favor.

Joelson cancelou a operação e iniciou outra…

– Não, não é necessário. Eu pago tudo.

Joelson parou, e resolveu esperar.

– Não é justo com você, eu vou pagar metade – Disparou a moçoila – Vou pagar e não saio daqui até pagar a minha parte! – Fez uma cara birrenta e emburrou.

– Tá… Pode dividir por dois então…  – No fundo, Matheus quase chorou de felicidade.

Joelson calculou e mostrou,

– Senhores, seria esse valor pra cada um, podendo ser dividido em até 3 vezes…

Então ela respirou fundo, pensou um pouco e assentiu.

– Tudo bem Matheus, viva o machismo. Você pode pagar.

– O que? Não, agora você paga também.

– Eu? Hahaha! Mas eu sou uma dama, e VOCÊ está me cortejando, faça seu papel e pague o jantar.

– Então você é dessas que são “compradas”?

– Ohhh, fala direito comigo!

– Ou o que?

– “Ou o que?”? Eu vou te mostrar o que!

Quando notaram, os dois estavam apoiados em cima da mesa, de frente para o outro, berrando no restaurante.

E num piscar rápido de olhos, deram seu primeiro beijo…

– Senhores, preferem que eu volte mais tarde?

Noite

Publicado: outubro 30, 2013 por slyfer052 em Contos
Tags:, , , , , , , , ,

O som estava alto, as luzes piscavam incessantemente, e eu e ele já estávamos “altos”.

– Vamos! – Puxei ele pelos braços – fechei meus olhos e deixei meu corpo seguir o ritmo da música. Tuts tuts tuts… Ele estava atrás de mim dançando.

E depois de um pouco, eu me virei pra ele e fomos até o canto da pista. Estava totalmente escuro, ele me acariciava de cima a baixo, das minhas pernas até minhas costas, de meu pescoço até os lábios. Ele deu uma mordida de leve.

– Ai… – murmurei entre o som alto da balada.

Ele sorriu.

Meu coração saltava junto de meus hormônios.

Tuts tuts tuts.

Os dedos que percorriam minha cintura eram gelados, mas a alma fervente! Aquilo me deixava excitada. A música alta derretia meu cérebro, enquanto me perdia em luxúria. Decidimos terminar em outro lugar, óbvio que iriamos transar.

Enquanto saia de lá, vi a Luana com outra menina. Que vadia, rs.

Entre tapinhas e amassos nós saímos daquele inferninho, e fomos para outro. Um com o letreiro caído e que piscava apenas o M, os pisos de azulejo antigo e uns degraus baixos que me fizeram tropeçar na entrada.

– Cuidado – Ele segurou em minha cintura enquanto eu ria.

Paramos no balcão e ele falou algo com um cara, não prestei atenção. Subimos por um elevador velho e mofado. Ele rangia. Os dentes.

Abrimos a porta e estávamos num quarto só pra nós dois, com paredes vermelhas, e um lençol amassado. Me joguei na cama e observei ele apagar a luz e acender o abajur. Ouvi seus passos vindos devagar para cama. Ele me queria muito, senti isso desde a primeira dose paga. Ele tirou minha camiseta justa e fitou os meus olhos. Sua mão que subia parou em meu peito, massageando-os lentamente. Ainda ouvia de leve o som da balada ali perto… Tuts tuts tuts… Sua boca ia me beijando em toda a extensão do pescoço, até chegar em meus lábios onde deu um beijo rasgado, e mordeu forte em meu pescoço.

“Aahhh”

Uma sensação agônica me ocorreu, arrepiando minha espinha em puro prazer. E minha vida se foi lentamente, entre luxúria e sede.

Tuts tuts tuts…

Minha visão se enturveceu e minhas forças foram tiradas. Meu corpo não respondia a mais nada, nem minha mente. Tudo ficava mais frio. Eu tremia.

Tundun Tundun tun…

Estava seca, de corpo e alma.

Ele me admirou por mais segundos… Alisando meu corpo…

E após uma única gota, eu renasci.

Bebia do pulso dele, sangue vivo, sangue frio junto de meu sangue, quente, caloroso, sangue.

Acorda, rápido! Vai perder a hora! Se troca, isso não, outra! Puta que pariu! Perdeu o trem, corre, depressa, anda! Não para! E vai fazer o que lá? Mas vai falar isso mesmo? Ué, qual livro? Será que da tempo? Vou indo! Corre corre corre! Esquece, volta! Mas não era isso? Como assim? Ta, ok, vou fazer!
Não, não acredito nisso, Perdeu? e agora, tem jeito? Tá, eu faço, não entendi, ok, sim, sim, não não é assim, claro, pode deixar

Luzes piscando, na noite vagando, brilhando em desfoque
num eterno enfoque da noite sem fim

Rápido rápido!

pisca, brilha, entorta, endoida
Sempre na avenida sem  fim

tem fim?

Tem sim, fim.

. . .

Acorda, rápido! Vai perder a hora! […]

“São Paulo, a cidade que nunca para.”

Ele e ela

Publicado: março 9, 2013 por slyfer052 em Contos
Tags:, , , , , ,

Eles viviam brigando.

Ele, ela.

Corriam um atrás do outro, entre tapas, entre beijos, entre voadoras. Provocantes.

Entretanto, era muita bagunça, ninguém aguentava isso!

Ele dava um beijo, e ela ficava assustada, parada. Depois corria atrás do mesmo.

Viviam assim.

Apaixonados.

Brigando.

Brincando.

Causando desordem por todo mundo, estressando todos e castigando a tudo. Desde o mais simples solo a mais densa floresta… Da pequena casa do campo a grande cidade.

Então, os separaram… Alguém escolheu.

E eles vivem em um ciclo infinito. Ele corre por ela, e ela por ele.

O dia e a noite, girando e girando, um pelo outro, amando e sonhando.

 

 

 

Qualquer semelhança entre realidade, ou filosofias passadas é mera coincidência.

O início

Publicado: dezembro 17, 2012 por slyfer052 em Contos
Tags:, , ,

Acordei.

Abri meus olhos e o vi a me observar.

Ele sorriu ao perceber que acordei, com seus fixos olhos a mim. Vindo da janela, o vento sussurrava enquanto fazia as vestes dele balançar suavemente.

Embasbacada, minha reação foi a surpresa e a gelidez repentina de minha alma. E calada, foi ali que tudo começou, o futuro da minha perdição.

Ingênuidade

Publicado: outubro 25, 2012 por slyfer052 em Contos
Tags:, , , , , ,

A garota desceu da cama, colocou seus pequenos pés no chão gelado e foi até a janela. Esticou-se para abrir a trava e empurrá-la, com um “crank” mal feito, a janela se abriu e uma brisa suave bateu em seu rosto, balançando seus curtos cabelos. Do outro lado, a lua brilhava num tom mórbido, linda, com algumas nuvens cinzentas em volta. Seus olhos brilharam ao ver algo alem daquele quarto, e simplesmente, deitou sua cabeça sobre a janela apoiada com os braços.

Tossiu um pouco, mas não saiu dali. Um zunido alto invadia seus ouvidos, o vento se intensificava. Todavia, ela queria ficar ali, por algo, não sei, não se sabe, nem ela sabia… Ela sentia.

Um suave sono infantil estava a domando pouco a pouco, bufou. Seus olhos lagrimejaram e começaram a se fechar lentamente, então piscou forte duas vezes para tentar despertar. Piscou mais uma vez, e quando abriu os olhos tudo parecia diferente. O sono já não era sentido. Desencostou a cabeça dos braços então, e olhou curiosa para a lua, a mesma continuava lá, mas algo estava diferente.

– Boa noite.

A pequenina olhou de volta para o quarto, e no canto, sim, aquele canto escuro que a luz amarelada do abajur mal alcançava, dele havia alguém. Não conseguia o enxergar perfeitamente, algo envolta do mesmo estava a tirar sua nitidez.

– Quem é você? – Perguntou ela sem hesitar, curiosa.

Ele ficou surpreso pela curiosidade da garota, e principalmente, o fato de não a ter assustado.

– Ora, sou aquele a quem todos visita um dia – A voz aveludada percorria a sala silenciosa, num tom grave e profundo.

Ela se atentou, e olhou o ser mais uma vez… Dos pés a cabeça…

– Não sei quem é você, É algum um médico?

– Você queria que eu fosse um médico?

– Não…

– Então eu não sou um médico.

– E o que você é?

– Sou eu que vou lhe levar embora – Se aproximou dela, e deixou que a luz da lua o iluminasse.

– Mas… – Fez uma pausa para analisar o sujeito – Por que vai me levar embora?

– Porque está na hora, minha querida – Passou os dedos esqueléticos sobre a testa da garota – Vamos?

– Mas… Você vai me levar aonde? – Naquele momento, não se soube se fora a curiosidade, a esperança, ou o medo que impulsionaram essa pergunta.

– Pra um lugar melhor… – disse tranquilo.

Ela pensou por alguns instantes no significado dessas palavras, refletiu, e concluiu.

– Vai ter bolo lá, né?

A criatura mostrou singelamente seus dentes, rendendo-se a ingenuidade da menina.

– Sim, pode ter bolo por lá…

– Então vamos! – disse num salto de alegria, indo até a porta e a abrindo lentamente, então parou, confusa… – A mamãe pode vir junto?

Ele olhou para a mãe da garota, dormindo na poltrona ao lado da cama, exausta.

– Ela vem, só não agora.

Ela concordou, olhou a lua uma ultima vez. Brilhante.

Abriu a porta.

– moço, você é muito engraçado sabia?

– Sou?

– É… – tentou conter a risada –… Nunca vi um homem de vestido preto… Hahahá

Ele se manteve em silencio, e a menina, segurando a mão da criatura passeou por um longo corredor, de silencio e paz…