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Por pouco

Publicado: novembro 15, 2012 por slyfer052 em Contos
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O vento emudecido, a vida tardia e a lotação populacional.

 

A estação empoeirada, as pernas exaustas e as luzes em movimento.

 

As pessoas do outro lado olhavam para todos os cantos com um desprezo eminente, não sei se cansadas ou apenas tristes. Entre nós os ratos a corriam entre os trilhos, fugindo, brincando e vivendo. Era comum, tudo aquilo. Desde minha mente delirante aos barulhos de carros ao fundo. O vento passou. Vuuhhhhhhhhh.

Que frio – ouvi algumas pessoas falando, mas não estava.

Olhei distantemente ao horizonte e vi dois pequenos brilhos se aproximando. Forcei meus olhos para enxergar melhor e então, como se minha mente voasse em meio a uma forte tontura, como se algo tomasse minha consciência, minha visão se enturvou e me vi caindo verticalmente enquanto os faróis se aproximavam. O céu nublado, os trilhos, e as luzes em minha direção. Uma tranquilidade me tocou tão forte quanto a sensação de um trem passando por cima de mim, fiquei em paz, minha respiração se foi e com ela meus batimentos.

Vuuuuuuuhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Um tufão passou rasgando meu tímpano e me expulsando de minha mente. Meu transe se quebrou, foi por pouco.

Meu coração disparou enquanto minhas pernas se tremiam. E lá estava eu, em frente aos trilhos, ao trem em rasante, trêmulo, com a respiração ofegante e suando frio…

Foi por pouco.

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Um fim

Publicado: julho 30, 2012 por slyfer052 em Contos
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Não acredito que isso está acontecendo.

– Vamos acabar logo com isso, Morg.

Em pleno feriado e estamos entrando no esgoto. Há dois dias, estamos fazendo uma busca por crianças desaparecidas, e por simplesmente terem os visto na região, nos mandam pra cá. Levantamos a tampa do bueiro e já senti um forte odor nauseante. Virei meu rosto quase que instantaneamente, insignificantemente. Meu estomago embrulhava enquanto tentava simplesmente respirar.

-Desce logo!

Desci.

Minhas botas afundaram naquela mistura de bosta com restos de comida, lixos úmidos e roedores menos afortunados.

– Você está com sua lanterna?

Marshall e eu trabalhávamos juntos há meses, e desde o momento em que o vi pela primeira vez, o tive vontade de socar.

– O que você acha? – A liguei.

A pouca luz que se passava pela lanterna era suficientemente inútil. Quase não víamos o que estava em frente… Andávamos na parte rasa daquele esgoto ridiculamente elaborado.

– Será que foram os crocodilos?

Apenas o encarei, e foi mais que o suficiente para lhe calar.

Por sua vez, o túnel circular que se sucedeu me dava repulsa. Não apenas pelos chiados dos ratos estalados ou pelo cheiro, mas aquilo… Lembrava-me algo. Talvez do sótão da minha casa, onde passara parte de minha infância… Ou talvez, outra coisa. Outra coisa.

– ALEX! JOSH! MELANY! – Gritava Marshall pelas crianças. Esperançoso… Idiota.

Andamos durante quase uma hora, e a única coisa que encontramos foram ratos. Até que Marshall saiu correndo.

– Vi alguma coisa! – E ele correu fazendo espirrar aquela água espumosa em minha calça.

Um boné infantil. Há essa hora, as crianças já deviam ter apodrecido, mas a porra daquela de boné? Não! E isso foi o suficiente, para Marshall me convencer a não desistirmos da busca. Como me odeio por ter lhe dado atenção.

Andamos.

E andamos.

Estranhamente notamos a diminuição de ratos na direção que íamos. Logo, seus chiados viraram sussurros distantes em meus ouvidos.

Aquele lugar me repreendia, sentia que deveria saber de algo. Mas o que?

A lanterna desligou e dei alguns tapas para que voltasse. E quando o fez,voltando minha concentração, ouvi a água. Ela corria a frente. Apressamos os passos e chegamos a uma bifurcação onde seguimos a água corrente para a esquerda. Nessa hora, a água havia passado do joelho, e o cheiro já não mais me afetava como antes. Pelo boné, no fundo acreditávamos em achar ao menos um fim para essa história, ironicamente, achamos o fim naquela noite.

Ao final do corredor, vimos e ouvíamos que a água descia, caia num estranho mini-córrego que não nos dava passagem.

Lá, tive a impressão de ter visto algo sair daquela água imunda. Algo viscoso. Que me fez engolir em seco ao me lembrar de relance das histórias de meu avô sobre monstros do esgoto. Entretanto, antes que eu pudesse terminar meu pensamento Marshall fora puxado.

– O q…! – Mergulhou numa força absoluta, arrastado.

Fiquei sem reação por instantes – Atirar ou correr? – Eu pensei, mas não corri. Minha alma corria como uma carcaça corre de um abutre, não dá! Não enquanto algo lhe fitava num tom inexplicavelmente cinzento e verde, em forma grotesca junto do chão. Com um brilho triangular e quadrado, e intenso amarelo em seu interior. Os olhos.

Minhas pernas bambearam. As lagrimas escorreram de meu rosto. E vi lentamente seus tentáculos se levantando contra mim, sumi.

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Foi o que me aconteceu. E você, como chegou aqui?