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Noite

Publicado: outubro 30, 2013 por slyfer052 em Contos
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O som estava alto, as luzes piscavam incessantemente, e eu e ele já estávamos “altos”.

– Vamos! – Puxei ele pelos braços – fechei meus olhos e deixei meu corpo seguir o ritmo da música. Tuts tuts tuts… Ele estava atrás de mim dançando.

E depois de um pouco, eu me virei pra ele e fomos até o canto da pista. Estava totalmente escuro, ele me acariciava de cima a baixo, das minhas pernas até minhas costas, de meu pescoço até os lábios. Ele deu uma mordida de leve.

– Ai… – murmurei entre o som alto da balada.

Ele sorriu.

Meu coração saltava junto de meus hormônios.

Tuts tuts tuts.

Os dedos que percorriam minha cintura eram gelados, mas a alma fervente! Aquilo me deixava excitada. A música alta derretia meu cérebro, enquanto me perdia em luxúria. Decidimos terminar em outro lugar, óbvio que iriamos transar.

Enquanto saia de lá, vi a Luana com outra menina. Que vadia, rs.

Entre tapinhas e amassos nós saímos daquele inferninho, e fomos para outro. Um com o letreiro caído e que piscava apenas o M, os pisos de azulejo antigo e uns degraus baixos que me fizeram tropeçar na entrada.

– Cuidado – Ele segurou em minha cintura enquanto eu ria.

Paramos no balcão e ele falou algo com um cara, não prestei atenção. Subimos por um elevador velho e mofado. Ele rangia. Os dentes.

Abrimos a porta e estávamos num quarto só pra nós dois, com paredes vermelhas, e um lençol amassado. Me joguei na cama e observei ele apagar a luz e acender o abajur. Ouvi seus passos vindos devagar para cama. Ele me queria muito, senti isso desde a primeira dose paga. Ele tirou minha camiseta justa e fitou os meus olhos. Sua mão que subia parou em meu peito, massageando-os lentamente. Ainda ouvia de leve o som da balada ali perto… Tuts tuts tuts… Sua boca ia me beijando em toda a extensão do pescoço, até chegar em meus lábios onde deu um beijo rasgado, e mordeu forte em meu pescoço.

“Aahhh”

Uma sensação agônica me ocorreu, arrepiando minha espinha em puro prazer. E minha vida se foi lentamente, entre luxúria e sede.

Tuts tuts tuts…

Minha visão se enturveceu e minhas forças foram tiradas. Meu corpo não respondia a mais nada, nem minha mente. Tudo ficava mais frio. Eu tremia.

Tundun Tundun tun…

Estava seca, de corpo e alma.

Ele me admirou por mais segundos… Alisando meu corpo…

E após uma única gota, eu renasci.

Bebia do pulso dele, sangue vivo, sangue frio junto de meu sangue, quente, caloroso, sangue.

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Doces gemidos

Publicado: março 24, 2013 por slyfer052 em Contos
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Ela gemia.

Um gemido leve, que ecoava suavemente…

Imaginava seu corpo outrora tão delicado, e agora tão esfomeado. Ela vinha em minha direção. Lentamente. Com um joguete falso de pés, tentando me excitar de certa forma, e conseguia.

Ahhh… Aqueles doces sussurros, eles iam direto aos meus ouvidos, depois para o cérebro. D’onde me eram tomados por uma estranha sensação. É difícil de explicar. Era, tentador. Simplesmente.

Segurei firme.

E ao chegar à luz, pude vê-la pela primeira vez. Com vestes rasgadas mostrando parte de sua coxa, seu rosto pútrido de lábios carnudos, seu castanho cabelo sujo de lama e sua pele morena avermelhada.

Seus sussurros tornaram-se urros, e ela correu em minha direção com os braços erguidos. Berrava. Com sua garganta desgastada, pelo tempo, pelo clima, pela vida, pela pós-vida.

Ahhh… Aquela sensação… De poder simplesmente descontar tudo nessa vadia.

Tudo. Pela Julia ter me abandonado, pelo Matheus ter tentado me matar, pelo Marcos ter saído do refúgio aquela noite, pela Marcela ter me deixado aqui, e vários outros filhos da puta. Minha raiva iria embora. Sentiria bem comigo mesmo. Aliviado.

Estiquei meu braço, mirando.

Entretanto, ao mesmo tempo… Minha vida estava em risco, e isso deveria me excitar, não? Afinal, com o instinto de sobrevivência a flor da pele eu deveria… Estar eufórico?

Atirei.

E ela caiu.

Meu coração relaxou, vagamente.

E outros sussurros foram ouvidos…

Aqueles doces sussurros. – venham até mim. Por favor, me façam parar com essa angustia.

Tinham tantos.

Depois de tudo que passei nessa merda de vida, a única coisa que podia lembrar era o ódio pelas pessoas. Não conseguia pensar em outra coisa.

Atirei, atirei, atirei, e atirei.

Os miolos voaram para todos os lados, mas o terreno já estava sujo o suficiente. Nada mudou, eram apenas mais sujeiras no planeta imundo.

Cada tiro era pensado e planejado à uma pessoa. Por ser idiota, por ser corajosa, por ser teimoso, por terem me abandonado.

As balas acabaram e me restou apenas uma barra de ferro que arranquei do portão.

Cada ataque, cada pancada, eu executei com o mais profundo ódio e raiva. Aquela vontade de viver… Que foi se perdendo pouco a pouco.

Por que chorava?

Relutava comigo mesmo.

Por que isso tinha que acontecer?

Eles eram tantos…

Tanto sangue.

Estava cansado.

Éramos tantos…

Era tanta… Morte (?)…

Os sonhos

Publicado: março 4, 2013 por slyfer052 em Contos
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Encontrei um livro interessante hoje. Na capa, de tom azul escurecido, só havia o título: Os Sonhos. Na contracapa apenas o nome: Antonio Bragança. Mas o livro, Sujo. Velho. Havia sido escrito a tinta, com uma bonita letra que demonstrava certa rigidez e tristeza nas palavras, sentia isso. Algumas páginas rasgadas e manchadas mostravam o quão castigado fora. Talvez pela umidade. O tempo. Ou qualquer outra coisa. Valeram-me 20 reais daquele sebo perto do serviço.

 

Cheguei cansada do trabalho, como de costume. Chega ser irônico eu ter estudado tanto, e não ter tempo algum pra descansar. O trabalho me suga. Estou realmente exausta.

 

Dei uma lida no livro, apesar da linguagem muito rebuscada e de algumas partes cortadas, estou conseguindo acompanhar. Ele conta a história de uma criatura antiga que aterrorizava algumas vilas pequenas no interior do Brasil, não citam a região. É uma escrita áspera, muito descritiva e intensa. Não dá vontade de parar.

 

A documentação estava atrasada, e meu chefe não parava de me encher. Fiquei o dia inteiro com dor de cabeça. Mais tarde fui almoçar com as meninas, A Ágata contou que vai viajar no próximo final de semana, eu devia fazer alguma coisa. O que?

 

A criatura já foi capturada, e fizeram um ritual de sacrifício para a mesma. O personagem principal, Antonio havia aprisionado a besta, e proclamado seu aprisionamento. A vila inteira se reunião para caçoar da criatura, mas besta jurou seu retorno aos poucos que lembrarem dela.

 

Tive um sonho estranho, estava num breu total, mas ouvia passos e passos. Sussurros.

 

Mal consegui dormir, fiquei péssima no trabalho. Além de estranha, não tinha humor ou energia pra nada… A história continua pouco a pouco as pessoas da vila começando a terem visões, algumas começaram a ficar paranóicas! Antonio não conseguia ajudar ninguém, a besta os atacava mentalmente. E ele vira todos sofrerem, sem poder fazer absolutamente nada.

 

Não estou conseguindo mais me concentrar no trabalho. É como se já não aguentasse mais. Talvez devesse pedir as contas.

 

Passos. Risos. Passos.

 

Meu chefe continua descontando toda sua fúria em mim, não sei se ele é mal resolvido com a mulher ou o que, mas pouco me importa. Simplesmente queria que ele sumisse. Ou me ignorasse. Que ódio!

 

Não consigo dormir.

 

Nem o café surte efeito. Duas contas estavam erradas e já havia computado no sistema, vou demorar dias para conseguir revisar todo o balanço da empresa. Mariana disse que estava pálida, que devia procurar um médico. Bobagem.

 

Antonio continuava na ânsia e desespero de salvar seu vilarejo e sua amada, mas a única solução achada foi a de ir até uma bruxa da floresta. Passou-se pela floresta densa de animais selvagens, de insetos asquerosos e cheiros pútridos apenas com sua esperança. A bruxa sorriu ao vê-lo entrando em seu território. E fizeram um pacto.

 

Meu chefe ainda não descobriu meu erro, tenho tempo para revisar. Tempo. Café. Tempo. Café. Já não sinto sono no trabalho, apenas não sinto.

 

Da escuridão, começou a urrar e estapear algo. Não conseguia interpretar o que. Arranhar. Gritavam comigo, e eu chorava! Estava sozinha enquanto murmúrios me rodeavam, gritando e gritando. Não enxergava nada! O ar havia se tornado mais denso, mal respirava. Tudo tremia.

E eu vi a criatura.

Num relance de vultos. Exatamente como era descrita, de olhos amarelos foscos, alta e esguia. Ela me fitava com os dentes serrilhados a mostra e seus braços a balançar pra frente e para trás. Meu coração se gelou. Por dentro eu chorei, gritei e chorei. Como se meu coração tivesse parado de bater.

S

U

M

I

U

Então eu cai. Estava no escritório com as pessoas me olhando boquiabertas. Enquanto eu tentava recuperar meu fôlego, mas não conseguia pensar. Me desesperei. E coberta de suor, e com minhas pernas totalmente tremulas corri pra casa. Está tudo acesso, está de dia, e tudo claro. Não vou dormir e ele não vai me encontrar. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou dormir. Não vou…

            A claridade se espalhava naquele ambiente inteiramente aberto. Sem objeto algum, sem nada material. Apenas a claridade, a luz, a paz.

            Um ótimo lugar pra se estar, um ótimo lugar para se relaxar, para se pensar na vida, nas crianças, no mundo…

            Tranquilo.

            Tchutchatchatchutchutcha

            Um som invadiu o local. O nada se desfez, alguns carros na terra bateram, e alguns anjos morreram naquele momento.

            – O que diabos, é isso?! – Indagou Deus ainda com sono.

            Puff! O diabo apareceu.

            – Chamou?

            – Não, não! De onde está vindo essa música?!

            – Que música? – Indagou o Coisa ruim enquanto coçava o chifre.

            – Fica quieto e presta atenção!

            Eles se aquietaram, e olharam ao redor lentamente, esperando algo estranho ou surreal. E então ouviram bem distante…

            Tchutchatchatchutchutcha…

            Mas ouviram.

            – O que é isso?! – Perguntou o Esquerdo, embasbacado com o som perturbador.

            – É o que estava me perguntando! – Ainda embasbacado.

            -… Talvez seja… Obra dos seus filhos…

            O som continuava e repetia infinitamente.

            – Han? Mas Jesus nunca faria uma coisa dessas! – Resmungou o pai protetor.

            – Não! Os outros filhos.

            – Ahhhhh, entendi. Será?

            E por um momento, o som parou.                   

            Eles se entreolharam rapidamente.

            – Parou.

            Todavia, outro som cortou o segundo silencioso.

            Aaaaaahhh lelek lek lek lek lek.

            Eles se entreolharam novamente, com um olhar simplesmente assustado. Que tipo de criatura poderia produzir tão odioso som? O diabo estava ali, então… Quem?

            Eles se aproximaram cautelosos, pouco a pouco, e uma estranha criatura se mostrou da claridade. Ela não os via, mas possuía uma bermuda maltrapilha, um óculos com lente amarela que deixaria qualquer demônio cego, e uma camisa preta com um cone verde estampado no peito.

            – Sério, o que é aquilo?

            – Não sei… Vamos fingir que não o vimos?

             Aaaaaahhh lelek lek lek lek lek – A criatura continuava

            – Acho que não vamos conseguir ignorar aquilo… – Disse Deus, pensante e pesaroso.

            – Bem, eu não moro aqui em cima – Riu o Canhoto.

            Deus projetou um olhar tão raivoso, mas tão raivoso que até o Diabo se afastaria. Não, pera.

            E ele realmente se afastou amedrontado.

            – Ok, ok, mas o que faremos? – Indagou então o pé de gancho.

            – Não sei…

            – Mas espera, já não está na hora dos julgamentos?

            – Não, não… O Gabriel sempre me acorda nesse horário.

            – E cadê ele?

            Deus olhou a sua volta, e nada. Só o diabo, e a criatura.

            – Ótimo… Ele não veio… – Deus começou a se irritar.

            O Diabo apenas observou.

            “Girando, girando, girando pro lado. Girando, girando, girando pro outro aaahhhhh lelek” – E antes que o som terminasse…

            – Então vamos acabar logo com isso – Disse o todo poderoso enquanto um estalo se fez, e a criatura apareceu diante deles.

            Assustada.

            Segurando algo em suas mãos que reproduzia aquele som terrível!

            As entidades se entreolharam, de novo.

            – Então era isso…

            Aaaahhhhhhhh lelek le… – TUUUUUUUUUMMMMMMMMMMM!!!!!!

            Um raio dantesco se materializou e simplesmente explodiu o aparelho demoníaco.

            – Poooooooooooooha véi!!! Que iço?! – Gritou a criatura sem entender o que acontecia!

            Deus se regozijou de alívio.

            Amém – Pensou.

            – Quem és tu?! – Perguntou com rigidez tamanha que cortou o mimimi do ser.

            – É… – Fitou a grande iluminação que pronunciava falas – Sou Uéslei.

            – Ah, Wesley você quer dizer, né? – Perguntou o Maligno

            – Não, Uéslei…

            – … – Diabo simplesmente inclinou a cabeça, tentando achar um raciocínio lógico sobre o porque desse nome.

            – Bem, Uéslei – Interrompeu Deus, já tentando finalizar o processo – Agora é o momento da verdade. Agora decidiremos se você vai para o céu, ou para o inferno. Você acha que deve ir para onde, e por que?

            – Caraaaaaaaaaaai véi!!! Eh sério isso?! Isso é tipo um julgamento?

            – É

            – Não, putz, não da nem pra acreditar, na moral.

            – Fala logo!

            – Eu, eu, eu acho que devia ir pro céu né véi. Porque tipo, eu respeito Deus p’a carai neh. É Deus em primeiro e dps a família neh.

            – Ta, gabriel, vê se tem algum registro dele no livro.

            Houve um período de silencio.

            – Gabriel?

            – Ele não…

            – Ah é! Então… – A poderosa entidade, olhou novamente o ser aparentemente humano em sua frente. – Estamos decididos, você vai pro inferno.

            – Oxi, mais porqe doutor? Uq qeu fis di erradu?

            As entidades se doeram por dentro.

            – Acho errado isso, você tem que dar uma chance a ele – Disse o Encruzilheiro – Você mal o deixou falar, e ele já disse que você sempre esteve em primeiro lugar!

            Deus ficou espantado com o Diabo. “Por que ele, logo ele, está recusando alguém no inferno?”… Pensou mais um pouco, e voltou:

            – Mas ele fala muito palavrão pra ser permitido no céu.

            – Todavia, o palavrão é apenas uma expressão e não retém maldade, é apenas a ignorância retida no que é errado.

            – Já lhe foi ensinado que é errado.

            – Mas não lhe foi mostrado as consequências! – Nesse momento, o Capiroto soltou um singelo sorriso.

            Foi então, que Deus refletiu… – Filho da puta!

            E estava feito, marcado, e apostado. Nenhum dos dois queria a criatura humanamente bestial, e lutariam até o fim para evitá-la. Uma briga que talvez mudasse o destino do mundo, do céu e inferno. Ninguém se atreveria a entrar no meio disto, ao menos não alguém consciente!

            – Eae galera, cheguei – Disse o anjo Gabriel, já tirando a mochila das costas– Desculpe o atraso, é que o lugar que você mandou eu enviar a ultima mensagem era muito longe… E no fim nem achei o lugar…

            Deus bufou. E percebeu que estava cansado de bufar. E bufou novamente.

            Ele pegou o envelope lacrado e olhou o destino: Acre.

            – Ué, não lembro de ter inventado esse lugar… Bem, depois eu resolvo isso. Rápido Gabriel, verifique o status dessa criatura no livro!

            E numa velocidade divinosa Gabriel tirou o livro de sua bolsa, e abriu na página requerida! Uéslei de Souza da Silva.

            – Bem, ele realmente cometeu coisas gravíssimas – Começou o anjo – Mas também viveu muito humildemente e não obteve oportunidades de ouvir a real palavra do senhor. Acho que poderíamos dar uma oportunidade a ele – Concluiu, satisfeito. Entretanto, ao olhar para Deus, sentiu que seria evaporado em segundos… – Oooou, ele realmente foi um criminoso muito maldoso, afinal não é normal alguém roubar um celular todo dia… – Então foi a vez do Tinhoso lançar um olhar tenebroso sobre o pobre anjo – … Espera ai!

            Gabriel pensou por um tempo enquanto os dois o encaravam raivosamente.

            – Senhor, você tem o endereço de onde aquele seu primo chato mora?

            -… Tenho, por quê?

            – Ótimo!

 

            …

 

            Mais tarde, Uéslei chegou a um lugar estranho, com grande e pesado portão de ouro. Ele forçou os olhos, usou o pouco conhecimento que tinha e leu: Valhalla.

As poções que escolhemos

Publicado: janeiro 16, 2013 por slyfer052 em Contos
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E numa pequena casa de bruxa estava eu, enfurnado, no meio a tralhas e poções.  Com um cheiro de poeira que fazia minha rinite atacar.

Atchin!

– Me desculpe, é que acabei de chegar à vila. Tenho muita coisa pra arrumar ainda – Tossia a velha.

Não respondi, mas assenti com a cabeça. Sentei a mesa por uns instantes, visualizando suas receitas de bolo e suas poções esquisitas, alguns livros estavam espalhados ali perto. Peguei o primeiro. Estava mega empoeirado, me segurei para não tossir em cima do mesmo e tirei o pó da capa, minha mão ficou com um acumulo impressionante de poeira. Forcei meus olhos e vi o titulo: “50 poções de cinza”. Um barulho estranho saia do caldeirão sob a clareira, provavelmente após a bruxa ter jogado no caldeirão algumas pétalas azuis de esperança. Aquilo soava como um apito. E pronto! Soprava-se a fumaça!
Uma nova poção estaria pronta em breve.

E ela veio em direção a mim, limpou a mão suja de chifre de bode no próprio manto preto e sentou-se a minha frente. Sua face, não tão “boa” quanto sua habilidade mágica, ou demoníaca.

Porém. Então. Por fim.
Quem sou eu para julgá-la?

Fazia o seu papel, e eu o meu.

Ela ergueu suas mãos por sobre as minhas, pairando as pelo ar. Sentia suas unhas cumpridas prontas para fincar em meus braços, e sugar toda minha alma…

Era gélido. Temeroso. Atormentador.

Recuei minhas mãos antes que o ocorresse.

– Então você procura por algo?

– Procuro… – Era algo obvio, ou o que estaria eu fazendo lá afinal?

– O que?

Pensei um pouco, por mais que eu saiba já esperava responder por isso. Algo era buscado de minha memória, tentado buscar, ao menos. Entretanto, falei.

– … Não sei. Esperava que você soubesse.

– Sou uma bruxa, e não advinha! MUWAHAHAHAHAHA!!! – Ela riu curvando-se pra trás enquanto um estranho e brilhante relâmpago era projetado pela janela atrás da mesma.

Sabe, não que eu entenda muito de feitiçaria, mas eu realmente imaginava que ela teria algum poder sobre isso.

– Admita, foi engraçado, haha – “ela havia feito alguma piada?”.

Bufei.

– Pode me ajudar ou não?

– Hm… – Deu uma leve fungada, e espalhou algumas poções e doces por cima da mesa. Umas de frascos grandes com líquidos azuis, outras amarelas com linhas laranjas transcendendo em alguns pontos, e vários outros fracos de diversos tamanhos. Pequenos, médios, grandes, largos, finos, coloridos, monocromáticos, fracos, fortes, de cheiro azedo e de cor de alergia a gatos.

Vários.

E um deles me chamou atenção. Mas não estava no meio da mesa.
Distante daquele cômodo, no topo de uma estante torta havia um frasco. O fitei por instantes. Era ele!

A bruxa, maldita, sorriu de canto de rosto, um sorriso falso, enrugado e emputrecido pelo tempo!

– Aquele é perfeito pra você – Ela disse com os olhos entreabertos, se regozijando por dentro. Via o êxtase em seu olhar – Mas não lhe fará bem… – riu suavemente.

Olhei novamente o frasco, ele brilhava iluminado pelas chamas da fogueira. Totalmente escuro.

Negro.

Ela levantou da cadeira, e com passos mancos pegou o frasco colocando em cima da mesa, como se quisesse me testar.

Olhei a ela, ao seu desafio de me forçar a pegá-lo, e a ela novamente.

– O que faz esse… ? – Perguntei finalmente

– Ele lhe fará pensar o dia todo, indagará o indagável, mas lhe tomará de um jeito inexplicável! – disse ela se animando com a conversa, parecia que sua mente delirava com o caminho que a conversa tomava – Não lhe recomendo…

Pensei por segundos, talvez…

Os coocós do relógio batiam, aquele estranho relógio de corvos. Se é que corvos faziam aquele barulho…

Vidrei-me ao frasco outra vez. Outra? Os fluidos do mesmo se mexiam perante a mesa velha de madeira e a gravidade… Era doce.

Ela estava fascinada com meu observar curioso. Curiosa também, ironicamente.

Enfim, segurei-o e pude sentir um poder estranho em mãos… Girei-o vendo de todos os ângulos, e notei ao topo escrito nas língua das bruxas:

“true love”

– O que significa?

– Sentimento fatal… – respondeu rapidamente, ainda com o sorriso ácido em sua face rugosa.

Pensei no que me falara, e no quão verdadeiro isso poderia ser. Ela é uma bruxa, ela mente sobre tudo, esconde tudo. O girava em minhas mãos, absolutamente negro. Perplexo, mas não a fundo. Ela poderia estar mentindo, ou não. Todavia, porque aquilo me chamava tanto a atenção?

Curiosidade?

Necessidade?

Os dois…

– Eu vou ficar com ele – disse determinado.

Ela estendeu novamente suas mãos sobre meus braços perpendiculares a mesa. Esticou seus dedos e projetou suas unhas velhas e gigantescas em mim, de meus antebraços à minhas mãos. Prendi meu grito dolorido, enquanto algumas gotas de sangue suavemente saiam de meu braço… e outras gotas de meus olhos.

– É isso… Exatamente isso… – Sorriu.

Foi o único dia em que vi a bruxa, o último. Mas minhas lembranças daquele dia ainda estão surpreendentemente frescas em minha memória.

Eu bebi o frasco e senti um gosto de margaridas amassadas por fadas. Era realmente doce, mas amargo. Engoli. E foi então que senti meu peito bombar, vibrar intensamente, clamar, chorar, e amar.
Não entendia o que era tudo aquilo, não que hoje entenda, só que… Era diferente.

Era forte.

Era bom.

Era… Dolorido.

Morri 2 anos depois… De desgosto, de amor, de desilusão?

Engraçado, disso não lembro.

Porém, espero que isso não importe, pois para mim não importou. Só quero que minha carta chegue ao mundo dos vivos logo, aqui as pessoas não são muito de ler elas só querem saber de jogar cartas e fofocar sobre os vivos, e sabe… Precisava compartilhar isso com alguém.

Por fim, isso é apenas a história de como adquiri a poção, do amor?… haha… Da experiência.

Ingênuidade

Publicado: outubro 25, 2012 por slyfer052 em Contos
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A garota desceu da cama, colocou seus pequenos pés no chão gelado e foi até a janela. Esticou-se para abrir a trava e empurrá-la, com um “crank” mal feito, a janela se abriu e uma brisa suave bateu em seu rosto, balançando seus curtos cabelos. Do outro lado, a lua brilhava num tom mórbido, linda, com algumas nuvens cinzentas em volta. Seus olhos brilharam ao ver algo alem daquele quarto, e simplesmente, deitou sua cabeça sobre a janela apoiada com os braços.

Tossiu um pouco, mas não saiu dali. Um zunido alto invadia seus ouvidos, o vento se intensificava. Todavia, ela queria ficar ali, por algo, não sei, não se sabe, nem ela sabia… Ela sentia.

Um suave sono infantil estava a domando pouco a pouco, bufou. Seus olhos lagrimejaram e começaram a se fechar lentamente, então piscou forte duas vezes para tentar despertar. Piscou mais uma vez, e quando abriu os olhos tudo parecia diferente. O sono já não era sentido. Desencostou a cabeça dos braços então, e olhou curiosa para a lua, a mesma continuava lá, mas algo estava diferente.

– Boa noite.

A pequenina olhou de volta para o quarto, e no canto, sim, aquele canto escuro que a luz amarelada do abajur mal alcançava, dele havia alguém. Não conseguia o enxergar perfeitamente, algo envolta do mesmo estava a tirar sua nitidez.

– Quem é você? – Perguntou ela sem hesitar, curiosa.

Ele ficou surpreso pela curiosidade da garota, e principalmente, o fato de não a ter assustado.

– Ora, sou aquele a quem todos visita um dia – A voz aveludada percorria a sala silenciosa, num tom grave e profundo.

Ela se atentou, e olhou o ser mais uma vez… Dos pés a cabeça…

– Não sei quem é você, É algum um médico?

– Você queria que eu fosse um médico?

– Não…

– Então eu não sou um médico.

– E o que você é?

– Sou eu que vou lhe levar embora – Se aproximou dela, e deixou que a luz da lua o iluminasse.

– Mas… – Fez uma pausa para analisar o sujeito – Por que vai me levar embora?

– Porque está na hora, minha querida – Passou os dedos esqueléticos sobre a testa da garota – Vamos?

– Mas… Você vai me levar aonde? – Naquele momento, não se soube se fora a curiosidade, a esperança, ou o medo que impulsionaram essa pergunta.

– Pra um lugar melhor… – disse tranquilo.

Ela pensou por alguns instantes no significado dessas palavras, refletiu, e concluiu.

– Vai ter bolo lá, né?

A criatura mostrou singelamente seus dentes, rendendo-se a ingenuidade da menina.

– Sim, pode ter bolo por lá…

– Então vamos! – disse num salto de alegria, indo até a porta e a abrindo lentamente, então parou, confusa… – A mamãe pode vir junto?

Ele olhou para a mãe da garota, dormindo na poltrona ao lado da cama, exausta.

– Ela vem, só não agora.

Ela concordou, olhou a lua uma ultima vez. Brilhante.

Abriu a porta.

– moço, você é muito engraçado sabia?

– Sou?

– É… – tentou conter a risada –… Nunca vi um homem de vestido preto… Hahahá

Ele se manteve em silencio, e a menina, segurando a mão da criatura passeou por um longo corredor, de silencio e paz…

Um fim

Publicado: julho 30, 2012 por slyfer052 em Contos
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Não acredito que isso está acontecendo.

– Vamos acabar logo com isso, Morg.

Em pleno feriado e estamos entrando no esgoto. Há dois dias, estamos fazendo uma busca por crianças desaparecidas, e por simplesmente terem os visto na região, nos mandam pra cá. Levantamos a tampa do bueiro e já senti um forte odor nauseante. Virei meu rosto quase que instantaneamente, insignificantemente. Meu estomago embrulhava enquanto tentava simplesmente respirar.

-Desce logo!

Desci.

Minhas botas afundaram naquela mistura de bosta com restos de comida, lixos úmidos e roedores menos afortunados.

– Você está com sua lanterna?

Marshall e eu trabalhávamos juntos há meses, e desde o momento em que o vi pela primeira vez, o tive vontade de socar.

– O que você acha? – A liguei.

A pouca luz que se passava pela lanterna era suficientemente inútil. Quase não víamos o que estava em frente… Andávamos na parte rasa daquele esgoto ridiculamente elaborado.

– Será que foram os crocodilos?

Apenas o encarei, e foi mais que o suficiente para lhe calar.

Por sua vez, o túnel circular que se sucedeu me dava repulsa. Não apenas pelos chiados dos ratos estalados ou pelo cheiro, mas aquilo… Lembrava-me algo. Talvez do sótão da minha casa, onde passara parte de minha infância… Ou talvez, outra coisa. Outra coisa.

– ALEX! JOSH! MELANY! – Gritava Marshall pelas crianças. Esperançoso… Idiota.

Andamos durante quase uma hora, e a única coisa que encontramos foram ratos. Até que Marshall saiu correndo.

– Vi alguma coisa! – E ele correu fazendo espirrar aquela água espumosa em minha calça.

Um boné infantil. Há essa hora, as crianças já deviam ter apodrecido, mas a porra daquela de boné? Não! E isso foi o suficiente, para Marshall me convencer a não desistirmos da busca. Como me odeio por ter lhe dado atenção.

Andamos.

E andamos.

Estranhamente notamos a diminuição de ratos na direção que íamos. Logo, seus chiados viraram sussurros distantes em meus ouvidos.

Aquele lugar me repreendia, sentia que deveria saber de algo. Mas o que?

A lanterna desligou e dei alguns tapas para que voltasse. E quando o fez,voltando minha concentração, ouvi a água. Ela corria a frente. Apressamos os passos e chegamos a uma bifurcação onde seguimos a água corrente para a esquerda. Nessa hora, a água havia passado do joelho, e o cheiro já não mais me afetava como antes. Pelo boné, no fundo acreditávamos em achar ao menos um fim para essa história, ironicamente, achamos o fim naquela noite.

Ao final do corredor, vimos e ouvíamos que a água descia, caia num estranho mini-córrego que não nos dava passagem.

Lá, tive a impressão de ter visto algo sair daquela água imunda. Algo viscoso. Que me fez engolir em seco ao me lembrar de relance das histórias de meu avô sobre monstros do esgoto. Entretanto, antes que eu pudesse terminar meu pensamento Marshall fora puxado.

– O q…! – Mergulhou numa força absoluta, arrastado.

Fiquei sem reação por instantes – Atirar ou correr? – Eu pensei, mas não corri. Minha alma corria como uma carcaça corre de um abutre, não dá! Não enquanto algo lhe fitava num tom inexplicavelmente cinzento e verde, em forma grotesca junto do chão. Com um brilho triangular e quadrado, e intenso amarelo em seu interior. Os olhos.

Minhas pernas bambearam. As lagrimas escorreram de meu rosto. E vi lentamente seus tentáculos se levantando contra mim, sumi.

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Foi o que me aconteceu. E você, como chegou aqui?